Papa Leão XIV faz duro alerta sobre abusos sexuais na Igreja
Vaticano projeta novos encontros com cardeais após Consistório histórico

Embora o tema não estivesse oficialmente na pauta do Consistório extraordinário realizado nos dias 7 e 8 de janeiro, o Papa Leão XIV fez questão de trazer à tona uma das questões mais sensíveis da Igreja Católica: a crise dos abusos sexuais. Diante de cerca de 170 cardeais, eleitores e não eleitores, vindos de todos os continentes, o Pontífice classificou o problema como “uma ferida que ainda hoje marca profundamente a vida da Igreja em muitos lugares”.
O Consistório teve como foco principal os temas da sinodalidade e da missão, aprovados pela maioria dos purpurados. Ainda assim, no discurso conclusivo dos dois dias de trabalho — cujo texto integral foi publicado neste sábado (10) — Leão XIV fez uma referência direta e contundente à chaga dos abusos.
“O próprio abuso causa uma ferida profunda que talvez dure por toda a vida; mas muitas vezes o escândalo na Igreja acontece porque a porta foi fechada e as vítimas não foram acolhidas nem acompanhadas com a proximidade de autênticos pastores”, afirmou o Papa, na Sala Paulo VI. Para reforçar sua denúncia, relatou o testemunho de uma vítima com quem conversou recentemente. Segundo ele, a pessoa afirmou que a maior dor não foi apenas o abuso, mas o fato de nenhum bispo ter querido ouvi-la. “A escuta é profundamente importante”, sublinhou.
Novos Consistórios e continuidade do diálogo
A escuta, apontada como eixo central do pontificado de Leão XIV, foi apresentada também como essencial na relação entre o Sucessor de Pedro e o Colégio Cardinalício. Por isso, o Papa pediu que o caminho iniciado no Consistório tivesse continuidade, com o objetivo de aprofundar o conhecimento recíproco, fortalecer o diálogo e implementar de forma concreta a sinodalidade.
Nesse contexto, anunciou a intenção de promover encontros regulares, possivelmente uma vez por ano, com duração maior. “Talvez três ou quatro dias: um primeiro dia de reflexão, de oração e de encontro, seguido de dois ou três dias de trabalho”, sugeriu. Para 2026, o Pontífice já marcou um segundo Consistório no fim de junho, possivelmente próximo à Solenidade de São Pedro e São Paulo.
Leão XIV também demonstrou sensibilidade às dificuldades econômicas enfrentadas por alguns cardeais, incentivando-os a pedir ajuda. “Podemos viver um pouco de solidariedade uns com os outros”, afirmou, mencionando a disponibilidade de pessoas generosas para apoiar essas iniciativas.
Contribuições por escrito e avaliação do Consistório
O Papa reforçou que o confronto e o diálogo “estão destinados a continuar” e pediu que os cardeais enviassem por escrito suas avaliações sobre os quatro temas discutidos — sinodalidade, missionariedade, liturgia e a constituição apostólica Praedicate Evangelium. Também solicitou considerações sobre o Consistório como um todo e sobre a relação dos cardeais com o Santo Padre e a Cúria Romana.
“Eu também me reservo o direito de ler com calma relatórios e mensagens pessoais e, depois, dar um retorno e continuar o diálogo”, prometeu.
Gratidão, formação e visão de futuro
Ao fazer um balanço dos trabalhos, Leão XIV destacou o Consistório como uma experiência positiva de colegialidade, intimamente ligada ao espírito vivido no Conclave. Manifestou gratidão especial aos cardeais mais idosos que participaram, classificando seu testemunho como “verdadeiramente precioso”, e expressou proximidade àqueles que não puderam comparecer.
Entre os temas que emergiram dos trabalhos em grupo, o Papa deu destaque à importância da formação, desde os seminários até os leigos colaboradores, sempre enraizada na vida concreta das comunidades locais. Segundo ele, visitas pastorais e organismos de participação precisam ser revitalizados como espaços permanentes de crescimento.
Sinodalidade, missão e serviço da Cúria
Reafirmando a centralidade da sinodalidade e da missão, Leão XIV lembrou que ambos os temas estão profundamente enraizados no Concílio Vaticano II e fazem parte de um processo contínuo de conversão e renovação da Igreja. Também destacou o papel da Cúria Romana à luz da Praedicate Evangelium, enfatizando a necessidade de harmonizar seu serviço com o caminho da evangelização e com a implementação do Sínodo, que terá uma etapa decisiva na Assembleia Eclesial de 2028.
Esperança em meio ao sofrimento
Ao concluir, o Papa voltou o olhar para o cenário internacional, marcado por guerras, violências e sofrimento. “Não estamos surdos à realidade da pobreza, da guerra e da violência que aflige tantas Igrejas locais”, afirmou, expressando solidariedade especial aos cardeais vindos de países em conflito.
Leão XIV também dirigiu uma mensagem de esperança aos jovens e à Igreja universal, recordando o espírito do Jubileu recém-encerrado: “Fechamos a Porta Santa, mas a porta de Cristo e do seu amor permanece sempre aberta”.
Com um discurso que combinou denúncia, escuta e proposta, o Papa deixou claro que pretende conduzir a Igreja por um caminho de diálogo, corresponsabilidade e esperança, sem silenciar diante das feridas mais dolorosas de sua história recente.
Fonte Informa Alagoas