08 de março: não queremos flores, queremos viver sem medo

Texto em colaboração com a psicóloga Milla Kaliane Rocha
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Mais um ano em que, no Dia Internacional da Mulher, a pergunta que ecoa é simples e necessária: o que exatamente estamos comemorando?
Nos últimos dias, notícias de feminicídios, estupros, assédios e diferentes formas de violência contra mulheres ocuparam os noticiários. Mas a verdade é que, para muitas de nós, essa violência não é apenas notícia. É realidade cotidiana.
Mulheres aprendem cedo demais a ter medo: medo do caminho de volta para casa, do olhar que invade, do toque não consentido, da roupa que escolheram vestir, de não serem acreditadas.
Mas, muitas vezes, esse medo também mora dentro de casa. No parceiro que controla, humilha ou agride, no familiar que invade limites, no silêncio que protege o agressor e na dificuldade de denunciar quando a violência vem de quem deveria oferecer cuidado e proteção.
E quando falamos de mulheres pretas, essa realidade é atravessada por outras camadas de violência. O racismo, a hipersexualização e a desumanização histórica de nossos corpos tornam esse cenário ainda mais duro e desigual.
Para compreender essa realidade, também precisamos olhar para algo mais profundo: a cultura em que fomos formadas.
Vivemos em uma sociedade que ensina e legitima homens a rejeitar tudo aquilo que é associado ao feminino. Desde muito cedo, os meninos que se tornarão homens aprendem que chorar é “coisa de mulher”, que sensibilidade é fraqueza e que cuidado e vulnerabilidade são características a serem evitadas.
O feminino passa a ser visto como inferior, como algo que precisa ser controlado, silenciado ou dominado.
Quando uma cultura inteira constrói o feminino dessa forma, não é difícil compreender de onde vem tanto ódio, desprezo e violência direcionados às mulheres.
Do ponto de vista da psicologia, não estamos falando apenas de episódios isolados. Estamos falando de uma estrutura que legitima desigualdades, naturaliza agressões e produz subjetividades marcadas pelo medo.
Falamos de traumas individuais e também coletivos, de mulheres que vivem em estado constante de alerta e de corpos que aprenderam a vigiar seus passos para sobreviver.
Por isso, talvez o 8 de março não seja sobre flores ou homenagens vazias, e sim sobre consciência e compromisso coletivo, especialmente por parte dos homens.
Não queremos discursos bonitos. Queremos segurança e respeito, porque nenhuma mulher deveria precisar ser forte apenas para continuar viva.
Milla Kaliane Rocha
Psicóloga CRP 19/2833