Bolsonaro diz que país não é contra dialogar com a França

crise provocada pelas queimadas e desmatamento, que expôs o Brasil em nível internacional, teve um novo capítulo, nesta terça-feira. O presidente Jair Bolsonaro disse em reunião com governadores da Amazônia, que ninguém é contra dialogar com a França.

A declaração foi dada depois de dias de trocas de farpas entre Bolsonaro e o presidente francês, Emmanuel Macron, em torno das queimadas na Floresta Amazônica.

Na semana passada, quando o aumento dos focos de incêndio começou a despertar reações internacionais, Macron foi uma das principais vozes a se levantar contra a política ambiental do governo brasileiro.

Ele chegou a dizer que Bolsonaro mentiu sobre a preservação da Amazônia e sobre compromissos do país com o acordo do clima de Paris. Nesta segunda, Macron citou os desentendimentos que teve com Bolsonaro nos últimos dias (veja no vídeo abaixo).

Macron relembra desentendimentos que teve com Bolsonaro

Em resposta, Bolsonaro sugeriu que Macron tem interesses econômicos na floresta e busca reviver o comportamento colonialista da França.

Diante dos governadores, convidados ao Palácio do Planalto para tratar das queimadas, Bolsonaro disse que a postura de Macron tem a ver com a baixa popularidade do presidente francês junto à população de seu país.

“Ninguém é contra aqui dialogar com a França, em hipótese alguma”, afirmou Bolsonaro.

O presidente também disse que conversou com alguns líderes que participaram, no fim de semana, da reunião do G7 (grupo que reúne sete das principais economias do mundo), para que levassem “serenidade” sobre a situação da Amazônia para o encontro.

“Agradecemos o trabalho do G7, conversei com alguns presidentes, entre eles o Donald Trump, com dois outros presidentes que participaram como convidados, como do Chile e da Espanha, para que exatamente acalmasse, levasse a serenidade para uma reunião tão importante que é a do G7”, acrescentou Bolsonaro.

Na segunda-feira (26), Macron disse que o G7 enviaria US$ 20 milhões para auxiliar o Brasil no combate às queimadas. No entanto, Bolsonaro afirmou que não aceitará, a não ser que Macron retire “insultos” contra ele e falas sobre um possível status internacional da Amazônia.

‘Perdendo tempo’

Um dos presentes à reunião, o governador do Pará, Hélder Barbalho (MDB), disse que o país está “perdendo tempo” ao se concentrar nas falas do presidente francês.

“Estamos perdendo muito tempo com o Macron, eu acho que temos que cuidar do nosso país, tocar a vida. Estamos dando muita importância a esse tipo de comentário, não desprezando a importância econômica que a França pode ter”, afirmou Barbalho.

Para ele, o Brasil precisa dar uma sinalização ao mundo de sua diplomacia ambiental, com o objetivo de evitar boicotes a produtos brasileiros, em especial no agronegócio.

“Acho que agora nós temos que cuidar dos nossos problemas e sinalizar para o mundo a diplomacia ambiental que é fundamental para o agronegócio, porque se não vamos ter um prejuízo severo de imagem que já tem causado preocupação para todos”, completou o governador.

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PC do B), também comentou o risco de sanções econômicas a produtos brasileiros. Ele disse ser contrário à recusa de “ações cooperadas” com outros países.

“Não podemos repelir ações cooperadas. Claro, que, preservado o valor da soberania nacional, o diálogo com outros países é imprescindível. Se o Brasil se isola no cenário internacional, ele se expõe a sanções comerciais gravíssimas contra os nossos produtores. Então, defender o Brasil, defender a soberania, defender a economia exige o diálogo com outros países”, afirmou Dino.

ONGs

O governador do Maranhão também falou sobre a atuação de organizações não-governamentais (ONGs) na Amazônia. Na semana passada, Bolsonaro chegou a dizer, sem apresentar provas, que as ONGs eram responsáveis pelas queimadas.

Na reunião, Dino disse que não está entre aqueles que “satanizam” as entidades e que as ONGs não são inimigas do Brasil.

“Não sou daqueles que satanizam, demonizam ONGs. Acho que isso é um equívoco, porque temos ONGs de imensa seriedade no mundo e no Brasil. Precisamos sempre separar, como diz a Bíblia, o joio do trigo. Não podemos dizer que as ONGs são inimigas do Brasil. Não será tocando fogo nas ONGs que nós vamos salvar a Amazônia. É preciso distinguir entidades da maior seriedade que atuam no Brasil há muitas décadas, universidades, institutos, igrejas”, afirmou o governador do Maranhão.

Ajuda financeira de outros países

Parte dos governadores defendeu que o Brasil deve aceitar ajuda com recursos internacionais para ações de combate às queimadas e para o desenvolvimento da região.

“Se é pouca a ajuda internacional, que a gente diga o que o Brasil acha que é razoável nessa relação. Não podemos simplesmente rejeitar, dizer não quero. O diálogo sempre vai ser o melhor caminho, inclusive entre os diferentes”, afirmou Waldez Góes (PDT), governador do Amapá.

Hélder Barbalho argumentou que o governo deve usar os R$ 750 milhões que atualmente estão no Fundo Amazônia. A verba do fundo era repassada por Alemanha e Noruega, mas foi suspensa depois que os dois países começaram a discordar de ações do governo brasileiro na área ambiental.

Segundo Barbalho, a crise teve início quando o governo brasileiro passou a questionar o fundo.

“Quando começou essa crise? Quando começou essa história de fundo Amazônia vai continuar, fundo não vai continuar. Se temos ciência de que o fundo é importante e queremos apenas rever a prioridade e, eventualmente, saber o que foi feito, eu acho que uma manifestação dessa já é uma manifestação a nível global que temos serenidade e responsabilidade com aquilo que é de interesse de todos nós”, afirmou o governador do Pará.

Bolsonaro respondeu que o uso de ajuda internacional cobra um preço. Segundo eles, esses países exigem demarcações de terras indígenas e áreas de preservação ambiental o que, na visão do presidente, prejudica a soberania nacional.

“Em grande parte o dinheiro vem de fora do Brasil, isso tem um preço: demarcação de terras indígenas, APAs [áreas de proteção ambiental], quilombolas, parques nacionais etc. Isso leva a um destino que nós já sabemos, insolvência do Brasil. Vamos ter que enfrentar a essa questão de qualquer maneira”, afirmou o presidente.

O governador de Rondônia, Marcos Rocha, se disse a favor de receber o dinheiro oferecido por outros países, desde que as autoridades brasileiras administrem os recursos.

“Recursos internacionais são bem-vindos desde que quem use os recursos sejamos nós. Não adianta o recurso chegar e ser utilizado por ONGs, que são internacionais, e dizer onde são aplicados e, às vezes, com salários internacionais”, afirmou.

Críticas a demarcações de terras

Ao longo de toda a reunião, Bolsonaro ressaltou que considera equivocada a política de demarcações de terras indígenas, quilombolas, e de áreas de preservação ambiental adotada por governos anteriores.

Para ele, as demarcações diminuem a ingerência do Estado brasileiro na região e favorecem a internacionalização da Amazônia.

“Com todo respeito aos que me antecederam, foi uma irresponsabilidade essa política adotada no passado no tocante à isso, usando o índio como massa de manobra”, afirmou o presidente.

“Muitas reservas têm o aspecto estratégico, que alguém programou. O índio não faz lobby, não fala a nossa língua e consegue hoje em dia ter 14% do território nacional. Vou fazer no final breve histórico disso, mas uma das intenções é nos inviabilizar”, argumentou o presidente.

gazetaweb.globo

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