“Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com pouco mais de 2,2 milhões de votos a mais do que Lula. Na quinta, dia 8, o Datafolha mostrou que essa distância tende a crescer.
O instituto perguntou aos eleitores que votaram em Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos ou Romeu Zema o que pretendem fazer no segundo turno. Entre eles, 46% disseram que vão de Flávio, 32% de Lula, 15% devem votar em branco ou anular. Entre os que já escolheram um dos finalistas, quase seis em cada dez ficam com o senador do PL.
O Ipespe – Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas –, em parceria com a Abrapel, a associação de pesquisadores eleitorais, encontrou a mesma direção: entre os eleitores de Caiado, 56% a 15% para Flávio; entre os de Cury, 50% a 29%; entre os de Renan Santos, 36% a 20%.
Os quatro candidatos somaram pouco mais de 9 milhões de votos. Se esse eleitorado se dividir como sugere o Datafolha, a vantagem de Flávio sobe de 2,2 milhões para algo perto de 3,5 milhões. É uma conta grosseira, de padaria. Mas mostra a tendência.
Diante da transferência desfavorável, a campanha de Lula foi buscar um número maior. Como você leu no Estadão, no sábado, dia 10, o vice-presidente Geraldo Alckmin disse que o principal desafio do segundo turno é levar às urnas quem faltou no primeiro turno. A abstenção, lembrou, foi de 33 milhões; a diferença entre os candidatos, de 2,2 milhões. A ideia é ‘motivar quem não foi no primeiro turno para ir votar no segundo’.
A comparação é sedutora. Trinta e três milhões são quinze vezes 2,2 milhões. Mas ela parte de uma premissa errada: a de que quem não votou é um eleitor disponível, sentado no sofá, à espera do convite adequado.
A abstenção brasileira é feita, em boa parte, de gente que não consegue votar – por doença, idade, distância, trabalho, falta de documento, ou porque vive em outra cidade, às vezes em outro país. Ninguém sabe a soma exata. Mas a direção é inequívoca.
No dia 4, segundo o TSE, 33,4 milhões de eleitores aptos não foram votar: 21,08% do total. É a maior taxa desde 1998, mas praticamente a mesma de 2022, de 20,95%. A abstenção cresceu ao longo das décadas – era de 11,9% no primeiro turno de 1989 – e se acomodou perto de 21% nas últimas três eleições presidenciais.
O segundo turno tem um padrão, e ele não fortalece a estratégia de Lula. Nas sete eleições presidenciais com segundo turno desde 1989, a abstenção aumentou em seis. A única exceção foi 2022: de 20,95% para 20,59% – uma queda modesta. A regra diz que menos pessoas comparecem no segundo turno.
Entre os que não votam, a maior parte não toma essa decisão por desinteresse ou falta de apoio aos candidatos.
Mas se não por isso, por quê?
O primeiro motivo é saúde. O Ministério da Saúde diz que o SUS atende mais de 3 milhões de idosos acamados. O cadastro eleitoral tem quase 17 milhões de eleitores com 70 anos ou mais – idade a partir da qual o voto deixa de ser obrigatório. Essas pessoas estão aptas a votar e entram no cálculo da abstenção. Muitas não votam porque não podem.
Quase 1/3 da abstenção no Brasil é formada por idosos ou analfabetos, também dispensados da obrigação: em 2022, foram perto de 10 milhões de pessoas. Entre os mais velhos, uma parcela importante fica em casa por dificuldade de locomoção ou problemas de saúde.
O segundo motivo é geográfico. Até as 19h do dia 4, o TSE registrou 4,3 milhões de justificativas pelo e-Título, o aplicativo da Justiça Eleitoral. No dia da votação, o app só aceita a justificativa de quem está fora do município onde vota – ele usa o GPS do celular para conferir.
E esse é um piso, que deixa de fora muita gente que justificou numa escola, quem ainda justificará nos próximos dias ou quem faltou e prefere pagar uma multa.
No Brasil, o voto em trânsito só existe nas capitais e em municípios com mais de 100 mil eleitores, e ele precisa ser pedido antes da eleição – neste ano, até o dia 20 de agosto. O cadastro eleitoral fechou no dia 6 de maio: quem se mudou e não transferiu o título continua registrado onde não mora. Nenhuma propaganda de segundo turno reabre esses prazos.
O Brasil tem 29 milhões de migrantes internos que vivem num estado diferente do de origem. Uma parcela importante da abstenção está nesse grupo.
O caso extremo é o de quem vive fora do país. O Itamaraty estima em 5,3 milhões os brasileiros no exterior. Dessa parcela, só 916 mil estavam aptos a votar nessa eleição. E estar apto a votar não é o mesmo que votar. No fim, apenas 341 mil pessoas votaram.
A esmagadora maioria dos brasileiros que vivem no exterior não votaram no primeiro turno, e não votarão no segundo, não importa o que diga a disputa política.
No mais há de tudo: gente que vive longe de seção eleitoral e não consegue transporte para votar, gente que perdeu documento, que está viajando.
Mas e o desinteresse, não existe? Existe, e o Datafolha mediu. No levantamento divulgado na semana passada, 13% de quem diz que faltou no primeiro turno da eleição presidencial citou como motivo o desinteresse pelos candidatos. Em 2022, o instituto havia encontrado 15% nessa categoria. Nas municipais de 2024, 14%. O número é estável – e minoritário. De 13% a 15% em três eleições diferentes.
As pesquisas indicam uma tendência difícil de contestar com tantos dados disponíveis: o número de brasileiros que não comparecem à urna por convicção é a minoria dos eleitores em abstenção.
E nada indica que sejam potenciais petistas à espera de uma convocação…”
Fonte TNH1 Coluna Contextualizando P/ Flávio Gomes de Barro /
