Quem financia a rede de ataques a jornalistas e adversários de JHC?

JHC publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que seus adversários criaram um “verdadeiro gabinete do ódio em Alagoas”. Segundo ele, “essa turma não tem limites”. A acusação seria apenas mais uma manifestação eleitoral não fosse uma decisão tomada praticamente ao mesmo tempo pelo Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas.

Em tutela de urgência, o desembargador Klever Rêgo Loureiro determinou a suspensão da programação regular de nove emissoras de rádio e o bloqueio de dez perfis no Facebook e no Instagram. Entre eles estão @t82noticias, @francesnewsbr, @quilombofm e diferentes contas da rede Francês FM.

A decisão foi tomada na AIJE nº 0601753-69.2026.6.02.0000, apresentada pela coligação “Pra Alagoas Fazer História de Novo”. A acusação sustenta que os veículos eram utilizados continuamente para favorecer a candidatura de JHC ao Governo de Alagoas e atacar seus adversários.

O levantamento entregue à Justiça analisou mais de 2,3 mil inserções radiofônicas e outras 2,3 mil publicações nas redes sociais. Segundo a decisão, haveria atuação em cadeia, ausência de conteúdo desfavorável à chapa de JHC e possível violação do dever de neutralidade aplicável às emissoras, especialmente às outorgas educativas.

A medida atingiu Francês FM, Farol FM, Nova Brasil FM, Nova Farol FM, Quilombo FM e Adore FM, vinculadas à Fundação Quilombo e a empresas relacionadas. As emissoras ficaram autorizadas a transmitir apenas o horário eleitoral, conteúdos obrigatórios e avisos aos ouvintes até o fim do primeiro turno.

A decisão também determinou que a Meta bloqueasse dez perfis, preservando o conteúdo e os dados cadastrais para a investigação. Foram fixadas multas diárias de R$ 50 mil por emissora e R$ 20 mil por perfil em caso de descumprimento.

É importante registrar que a liminar não representa julgamento definitivo. O próprio relator ressalvou que a investigação ainda deverá concluir se houve uso indevido dos meios de comunicação ou abuso de poder econômico. Os investigados terão direito de apresentar suas defesas.

Mas a decisão reforça uma pergunta que não pode mais ser evitada: quem financia essa estrutura de comunicação?

Ataques sincronizados

O T82 não aparece isoladamente. Em 9 de setembro, uma reportagem contra o jornalista Edivaldo Júnior foi publicada pelo T82 e pelo AL102 no mesmo horário, às 13h24, com título e texto iguais. O mesmo conteúdo também foi reproduzido pelo Quarto Poder na mesma hora.

Os três veículos exibem ou exibiram publicidade institucional da Prefeitura de Maceió. Isso não comprova, por si só, que a administração municipal tenha contratado ou orientado qualquer ataque. Também não demonstra que os anúncios tenham sido condicionados ao posicionamento editorial dos portais.

As outras empresas listadas na decisãoda Justiça Eleitoral também veiculam materiais da prefeitura de Maceió

Falta transparência

No caso do T82, a relação empresarial já foi identificada pela própria Justiça Eleitoral. Em outro processo, a LBA Comunicação Ltda. apresentou-se judicialmente como responsável pelo T82. A empresa pertence a Lucas Garcia, ex-assessor parlamentar de JHC e ex-servidor comissionado da Prefeitura de Maceió. A mulher dele, Bartíria Garcia, é comissionada da prefeitura.

O monitoramento realizado entre 16 de julho e 10 de setembro encontrou 85 publicações no T82. Em 74 delas, equivalentes a 87,1% da amostra, havia publicidade da Prefeitura de Maceió.

No mesmo período, foram classificadas 64 publicações críticas ao Governo de Alagoas, 12 ataques diretos a Paulo Dantas e nenhuma matéria identificada como elogiosa ou promocional ao governo estadual ou ao governador.

O recorte encontrou vários conteúdos favoráveis à Prefeitura, a JHC ou a Rodrigo Cunha. .

A caixa-preta da publicidade

A publicidade institucional é normalmente executada por meio de agências contratadas. Por isso, os valores efetivamente destinados a cada site, rádio ou perfil não aparecem de forma clara no Portal da Transparência como pagamentos diretos aos veículos.

É justamente essa intermediação que precisa ser aberta. A Prefeitura de Maceió e suas agências devem informar quanto foi autorizado, faturado e repassado, entre 2021 e 2026, ao T82, Francês News, AL102, Quarto Poder, Francês FM, Farol FM, Nova Farol, Quilombo FM e às demais empresas e plataformas alcançadas pela investigação eleitoral.

Também precisam ser divulgados os planos de mídia, pedidos de inserção, critérios de escolha, relatórios de audiência, notas fiscais, comprovantes de veiculação e pessoas jurídicas que receberam os recursos.

Gabinete

O veículo receber não está proibido de ter posição política. O problema surge quando uma estrutura financiada com recursos municipais pode estar sendo utilizada para promover um grupo, atacar adversários e constranger jornalistas.

Se JHC pretende denunciar a existência de um “gabinete do ódio”, deve começar pedindo para abrir as contas da comunicação da Prefeitura de Maceió. Feito isso, ele terá total legitimidade para cobrar que o governo do Estado ou outras prefeituras façam o mesmo.

A transparência mostrará se existe apenas coincidência editorial ou se recursos públicos ajudaram a sustentar uma rede de comunicação politicamente orientada, seja pela prefeitura de Maceió ou pelo governo do Estado.

Fonte Jornal de Alagoas ( Blog Edivaldo Júnior )

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