Um abalo na prática do “é dando que se recebe”

É uma triste tradição brasileira o Executivo tentar comprar o apoio do Legislativo para conseguir a aprovação de matérias mais polêmicas que sejam diretamente do seu interesse.

No caso da indicação do advogado Jorge Messias para o Supremo Tribunal Tribunal Federal, semana passada, o presidente Lula (PT) investiu pesado, liberando milhões de reais em emendas parlamentares, visando “seduzir” deputados e senadores.

Convencionou-se chamar isso de “é dando que recebe” ou “toma lá, dá cá”.

E tem até uma expressão mais apropriada para essas ocasiões: “uma mão lava a outra”.

No caso de Jorge Messias, as mãos continuam sujas, pois seu nome foi rejeitado para ser ministro do STF.

É o que explica Nuno Vasconcellos, no portal IG:

“Não adianta! Depois que o cristal se quebra, é impossível colar os cacos e imaginar que o jarro voltará a ser igual ao que era antes.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com a base de apoio do governo — que se esfacelou na semana passada, depois de sofrer uma das derrotas mais emblemáticas já impostas ao Poder Executivo no Parlamento brasileiro desde o dia 3 de maio de 1823 — quando o Legislativo, ainda nos tempos do Império, foi instalado no país. Depois do que aconteceu, resta ao governo entender as causas da queda e encontrar um novo jarro para pôr no lugar do que se partiu.

A questão é saber se haverá tempo para isso até o final deste ano ou se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá que esperar pelo próximo mandato para voltar a ter uma base confiável. Isso, obviamente, se ele sair das urnas, em outubro, com uma vitória que, embora provável, já não parece mais ser tão líquida e certa quanto se mostrava no início do ano.

O estrago foi considerável. Por 42 votos a 34, o Senado rejeitou, na noite de quarta-feira passada (29), o nome do  Advogado-Geral da União, Jorge Messias, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Foi, como vem sendo dito com insistência desde o anúncio do resultado, a primeira vez que um nome indicado ao STF foi barrado pelos senadores desde 1894, no governo do marechal Floriano Peixoto. Foi um baque e tanto, mas não foi o único que o governo sofreu na semana passada.

No dia seguinte, quinta-feira (30), houve outra derrota acachapante em mais um tema especialmente sensível. Com votações de 318 votos a 144, na Câmara, e de 49 votos a 24, no Senado, o Congresso Nacional derrubou o veto integralde Lula  ao projeto da Dosimetria que, na prática, tirará da prisão a maioria dos condenados pelas manifestações do dia 8 de janeiro de 2023.

Qualquer uma dessas derrotas já seria suficiente para mostrar que o governo enfrenta problemas seríssimos em sua articulação com o Parlamento. Somadas, então, elas expõem uma chaga dolorosa e revelam que essa articulação, se é que já existiu um dia, não deu o ar de sua graça no Plenário na semana passada.

O que o governo fará daqui por diante para consertar essa relação e voltar a ter chances de ver os seus projetos prosperarem no Congresso ainda é incerto, mas os movimentos que se seguiram à divulgação dos resultados foram tão desastrados quanto os que conduziram às derrotas. A primeira reação dos responsáveis pela articulação do governo foi a de se queixar de uma traição mais do que previsível — e que só existiu porque os responsáveis por esse diálogo não se mostram à altura da importância de sua tarefa.

Um exemplo evidente dessa inabilidade é o líder do PT na Câmara, o deputado Pedro Uczai. Na saída do Plenário, assim que foi anunciada a derrubada dos vetos de Lula ao projeto da Dosimetria, ele se revelou um substituto à altura de seu antecessor, Lindbergh Farias (PT).

Explica-se: assim como Farias, Uczai mostrou-se um especialista na arte de jogar nos adversários a culpa pelo próprio fracasso, sem parar um minuto para avaliar os erros que cometeu.

Em vez de admitir os passos em falso no encaminhamento da votação da dosimetria e de se mostrar sensível à ideia de reduzir penas absurdas impostas aos condenados pelo dia 8 de janeiro de 2023, ele insistiu na ideia de manter atrás das grades as pessoas presas nas manifestações que o governo vê como uma ‘trama golpista’.”

Fonte TNH1 / Contextualizando

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