Alagoas é o estado onde mais se mata homens jovens e negros, aponta anuário

Terra de Zumbi dos Palmares, Alagoas é um dos estados onde mais se mata negros no Brasil. É o que revela o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A pesquisa mostra, ainda, que os jovens do sexo masculino, com idades entre 15 e 29 anos, são a maioria das vítimas dos crimes de homicídio. A pesquisa foi divulgada nesta quarta-feira (5) e mostra também que os estados mais violentos para os negros estão localizados na região Nordeste do País.

Entre os estados com as maiores taxas de homicídios de pessoas negras, Alagoas se apresenta com 67,9 a cada 100 mil habitantes negros. Mesmo ocupando o 5º lugar no ranking, que divide com outros estados do Nordeste, houve uma redução de 2,6%. O estado fica atrás apenas do Rio Grande do Norte, com uma taxa de 87 mortos a cada 100 mil habitantes, Ceará (75,6), Pernambuco (73,2) e Sergipe (68,8). A taxa de homicídios de negros foi de 43,1 em todo País. A taxa de não negros (brancos, amarelos e indígenas) foi de 16.

VIOLÊNCIA CONTRA JOVENS

Com relação aos jovens do sexo masculino, com idades entre 15 e 29 anos, a pesquisa revela que Alagoas teve 53,7 mortes a cada 100 mil habitantes em 2018, o que significa um total de 1.813 homicídios.

Mesmo sendo um dos mais violentos para jovens do sexo masculino entre 15 e 29 anos, e se comparado aos dados com o ano de 2016, a pesquisa revela ainda que houve uma redução de 0,9%. Nos dois cenários, Alagoas têm a quarta maior taxa de homicídios em relação aos demais do ranking. No Brasil, o índice geral é de 31,6.  Em relação aos demais estados brasileiros, o estado ficou em 7º lugar. Alagoas só fica atrás do Rio Grande do Norte (87), Ceará (75,6), Pernambuco (73,2) e Sergipe (68,8).

Conforme o levantamento, este índice demonstra um aprofundamento da desigualdade racial nos indicadores de violência letal no Brasil. Em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram indivíduos negros (a soma de pretos e pardos, segundo a classificação do IBGE, utilizada também pelo sistema do Ministério da Saúde).

Jovens com idades entre 15 e 29 anos são a maioria das vítimas

FOTO: FILIPE LIMA

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Em Alagoas, a desigualdade racial é destaque. Os pesquisadores revelam que “na última edição do Atlas, já havíamos apontado que esse estado apresentava a maior diferença na letalidade entre negros e não negros. Contudo, este fosso foi ampliado ainda mais em 2017, quando a taxa de homicídios de negros superou em 18,3 vezes a de não negros. De fato, é estarrecedor notar que a terra de Zumbi dos Palmares é um dos locais mais perigosos do país para indivíduos negros, ao mesmo tempo que ostenta o título do estado mais seguro para indivíduos não negros (em termos das chances de letalidade violenta intencional), onde a taxa de homicídios de não negros é igual a 3,7 mortos a cada 100 mil habitantes deste grupo. Em termos de vulnerabilidade à violência, é como se negros e não negros vivessem em países completamente distintos”, ressaltam os pesquisadores na pesquisa.

Professora Arísia Barros, de 59 anos, ativista da ONG Instituto Raízes de África, e militante em ações afirmativas há mais ou menos duas décadas,  destaca que “Alagoas é racista”.

“Mesmo sendo um Estado pequeno a população negra ainda é alvo prioritário e preferencial da violência. A juventude negra ainda é o alvo. A gente se pergunta como um estado que é referência na questão do Quilombo dos Palmares, símbolo de liberdade, continua a exercer o escravismo”, disse Arísia Barros.

A professora também fez um questionamento sobre o genocídio. “O genocídio é fruto do abandono social, de uma falta estrutural. O racismo estrutural marginaliza e sequestra as oportunidades levando para as periferias, que são as senzalas modernas, e dentro desse contexto não há oportunidades. É toda uma rede de possibilidades que leva à marginalização. Essa imagem marginal do povo preto nos deixa também como algo porque a polícia sempre nos vê como um sujeito suspeito”, concluiu

O advogado e membro da Comissão de Defesa das Minorias da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seccional Alagoas, Alberto Jorge Ferreira analisa os dados há cinco anos. Para ele, o drama vivido pela juventude segue.

“Alagoas já foi o estado que mais assassinava jovens negros no Brasil. A matança continua. Se analisarmos profundamente encontramos a periferia de Maceió. A maioria dos jovens que moram na periferia são negros. A partir disso tiramos a ideia de onde está inserida à população negra do Estado. Os assassinatos estão acontecendo e é necessário que as autoridades fiquem atentas”, disse Alberto Jorge.

DADOS DE ALAGOAS

Sobre os dados divulgados pelo anuário, em nota, o Governo do Estado divulgou que os taxa de homicídios de negros por grupo de cem mil habitantes em Alagoas já chegou a ser de 83, a maior do país e de toda a série histórica do Atlas da Violência até o ano de 2016. “Esse índice hoje é de 67,9, um número que precisa ser reduzido e é o que vem acontecendo desde o primeiro ano de governo”, destaca.

Ainda segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP), embora essa taxa oscile pouco até o ano de 2017, como aponta o estudo do Ipea, ela nunca mais voltou a atingir os picos verificados em outros períodos. “Tanto é que houve redução de 11,4% entre 2012 a 2017 e de 2,6% de 2016 para 2017. A meta é reduzir mais fortemente nos próximos anos com os programas voltados para Educação e inclusão social”.

A nota destaca ainda que apesar da taxa de Alagoas ainda ser a quinta maior do país, não houve crescimento, mas sim redução. “Estados que lideram o ranking apresentaram crescimento de até 333%, como é o caso do Rio Grande do Norte. Na taxa geral, ou seja, nas mortes de negros e não negros, Alagoas também já foi o Estado em que mais se matava. No ano de 2011 tem registrada a taxa de 71,4 homicídios por cem mil habitantes. Já no primeiro ano deste governo, o Estado conseguiu reduzir de 62,8 para 52,3, taxa menor que a de 2007 e de toda a série histórica do levantamento do Ipea e Fórum de Segurança Pública”.

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