Após vencer leucemia, alagoana segue os passos do pai e se destaca no jiu-jitsu

Varios fatores podem despertar o interesse pela prática esportiva. Porém, no caso da alagoana Maria Eduarda de Melo, a paixão pelo jiu-jitsu era quase que inevitável de acontecer. Filha de Sandro Melo – uma das referências da modalidade em Alagoas -, Duda, que tem apenas 14 anos de idade, encontrou nos tatames o cenário ideal para revelar seu grande talento. E com o apoio incondicional do pai, logo passou a colecionar títulos expressivos, a exemplo do Sul-americano, tornando-se uma grande promessa dentro da arte marcial.

Além do sangue de atleta, a garra da alagoana aflorou precocemente, quando ela tinha apenas três anos e precisou enfrentar talvez a maior adversária de sua vida: a leucemia. Para Sandro Melo, a descoberta da doença da filha foi o momento mais difícil já vivenciado por toda a família. Ao lado de Duda, ele conversou com a reportagem da Gazetaweb no colégio onde ministra aulas de jiu-jitsu, na cidade de Rio Largo, e lembrou a batalha contra a doença.

Durante o tratamento, Duda precisava usar máscara na escola

FOTO: ACERVO PESSOAL

– Foi um baque para a nossa família porque, apesar de a gente ouvir muitas histórias, nunca passamos nem perto de algo assim com algum parente. Então, sentimos na pele, pois, uma menina de apenas três anos de idade ser diagnosticada com câncer é muito difícil. Graças a Deus, tivemos o apoio da família e da escola, que permitiu que ela estudasse no próprio hospital. Inclusive, posso afirmar que, nesse período, moramos no hospital.

Entre idas e vindas ao hospital, Duda encarou um árduo tratamento com quimioterapia durante três anos. E apesar de ainda criança, Dudu garante recordar algumas fases da terapia. “Lembro quando minha mãe pendurava o soro na cadeira de rodas onde eu estava e, depois, saíamos correndo pelos corredores do hospital durante a noite”, conta a menina, sempre com um largo sorriso no rosto.

Guerreira dentro e fora dos tatames

Apesar da gravidade da doença, Duda não precisou se submeter a um transplante de medula – procedimento muito adotado no combate à leucemia. No entanto, próximo do fim do tratamento, ela acabou tendo uma recaída, como explica Sandro.

– Ela não reagiu bem na última quimioterapia. Então, passou a sangrar pela boca, além de não falar e nem abrir os olhos. Foi muito difícil. Ela já estava sem cabelos, e os médicos não acreditavam muito que ela iria escapar. Como ela havia tomado muitos antibióticos, os médicos chegaram a dizer que somente Deus poderia salvá-la.

Além de pai, Sandro Melo também é o treinador de Duda no jiu-jitsu

FOTO: ISAAC SIMÕES

Porém, Duda não só melhorou, como também, quando plenamente recuperada, passou a seguir os passos do pai no esporte. Antes do jiu-jitsu, ela chegou a praticar outras modalidades, a exemplo de balé e ginástica rítmica. Porém, não demorou muito para descobrir que seu futuro estava nos tatames.

– Na minha primeira competição, lutei com uma menina mais velha e mais pesada, e acabei ficando em segundo lugar. Mas, com o passar do tempo, adaptei-me ao esporte. Muitas vezes, as pessoas perdem a primeira e já não querem mais competir. Porém, não desisti e, de lá para cá, não perdi mais nenhuma luta.

Duda exibe com orgulho a medalha de bicampeã Sul-americana de jiu-jitsu, no Rio

FOTO: ACERVO PESSOAL

Cura e medalhas de ouro

Duda Melo começou sua história no jiu-jitsu aos 11 anos de idade. Hoje, apenas três anos depois, só faz incrementar o currículo a cada competição que disputa, fazendo jus ao sobrenome. Já são quatro títulos estaduais (2 pela Liga Alagoana de Jiu-Jitsu e 2 pela Federação Alagoana de Jiu-Jitsu) e um brasileiro. Além destes, Duda também trouxe para casa o bicampeonato sul-americano, na categoria meio-pesado (até 60kg), no último mês de julho.

– Vencer o Sul-americano foi uma felicidade muito grande. Ver toda a família ali, torcendo por mim no tatame, faz eu esquecer o nervosismo. Eles me ajudaram a dar o meu melhor. Foi difícil, mas, graças a Deus, consegui chegar ao lugar mais alto do pódio”, afirmou a atleta.

Apesar de ter uma vida considerada normal, o pai de Duda explica que a filha ainda não pode ser considerada curada, já que, segundo os médicos, este diagnóstico só pode ser dado 10 anos após a conclusão do tratamento. Já se passaram oito anos e, mesmo sem apresentar nenhum sintoma da doença, Duda retorna todos os anos ao hospital para fazer exames.

Pai atento

Sandro Melo é considerado uma das principais referências do jiu-jitsu alagoano. Além dos vários títulos em território nacional, Sandro também é lembrado por ser um dos responsáveis pela democratização do esporte no estado, sendo um dos fundadores da Federação de Jiu-Jisu Esportivo Tradicional de Alagoas (FJE-TAL).

Sandro Melo faz questão de acompanha de perto a evolução da filha nos tatames

FOTO: ISAAC SIMÕES

Além disso, Sandro também criou a equipe Sandro Melo Team, que logo se transformou na maior equipe de jiu-jitsu do estado, com 23 centros de treinamento (CTs) distribuídos nas cidades de Maceió, São Miguel dos Campos, Rio Largo, Messias, Marechal Deodoro e Murici.

E mesmo já tendo construído uma bela história dentro do jiu-jitsu, ele explica que nunca influenciou Duda a praticar o esporte, destacando a emoção de vê-la em ação no tatame.

– Apesar de eu ser professor de jiu-jitsu, sempre deixei ela à vontade para escolher algum esporte. Lembro bem da primeira vez em que ela pisou o tatame por uma competição. Foi em agosto de 2015, em Aracaju. Era um domingo de dia dos pais. E vê-la ali lutando foi uma felicidade muito grande porque, para uma menina que chegou tão próximo da morte, estar participando de uma competição de alto rendimento já seria uma vitória grandioso. Portanto, foi algo mais gratificante do que qualquer medalha que ele porventura conquistasse.

Duda Melo vence no Rio de Janeiro e conquista o bicampeonato Sul-americano

Jovem alagoana é uma das promessas do jiu-jitsu no estado

Apesar de diminuir sua contribuição, Sandro reconhece que o jiu-jitsu também ajudou na recuperação da filha.

– Eu pesquisei. Atualmente, não se recomenda fazer exercício físico àqueles que passam por quimioterapia. Porém, quando se está fora do tratamento, o jiu-jitsu é uma excelente atividade, pois, além de ser aeróbia, ela também é anaeróbia. Então, o esporte melhorou a capacidade cardiorrespiratória da Duda, o que me fez ter a certeza de que era o esporte ideal. Sem contar que, por ser professor de educação física, sempre estive acompanhando de perto o tratamento da minha filha. Foi muito gratificante ver a evolução dela dentro do esporte e também como pessoa, já que minha filha é uma campeã dentro e fora do tatame.

Duda ao lado do pai e dos irmãos em uma das academias da Sandro Melo Team

FOTO: AILTON CRUZ / GAZETA DE ALAGOAS

Além do pai, os irmãos de Duda (Sandro Melo Júnior e Nicole Ramos) também escolheram o jiu-jitsu como esporte, já se destacando, assim como a irmã, nas competições que têm disputado. Orgulhosa pela trajetória que segue construindo, Duda deixou a modéstia de lado e, ao fim da entrevista, cravou:

– Eu sou uma guerreira! Venci o câncer e quero seguir guerreira nos tatames.

Eduarda Melo e sua coleção de medalhas no jiu-jitsu

FOTO: ISAAC SIMÕES

GazetaWeb

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