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TODO DIA É DIA DE FOLCLORE

Hoje no Brasil se comemora o Dia do Folclore – 22 de agosto, data institucionalizada pelo Congresso Nacional no ano de 1965, em plena ditadura militar. Talvez isso explique algumas coisas. Há controvérsias sobre o uso da palavra folclore, optando-se muitas vezes pela expressão “cultura popular”, aparentemente mais abrangente a traduzir melhor a dinâmica do fazer artístico (música, poesia e literatura, artes visuais, dança) da gente simples por esse País afora. Etimologicamente, o vocábulo folclore é a junção de duas palavras inglesas – folk: povo, e lore: conhecimento, valendo a tradução ao pé da letra: conhecimento de um povo ou conhecimento popular. O clichê é a visão que se tem desse arcabouço de manifestações artísticas e culturais populares como algo que veio de um passado remoto, chegando até nós como uma tradição engessada e retransmitida de pai para filho ad infinitum.

“Não gosto do termo folclore, acho que ele se choca com o conceito de tradição”, argumenta o músico e poeta Rogério Dyaz. Segundo ele, o dia do folclore “é mais uma forma de folclorizar a tradição e mantê-la parada no tempo”. “Por isso, nós da articulação da cultura popular e afro-alagoana não comemoramos o dia do folclore e sim o mês das tradições, com o evento Agosto Popular”.

Por enquanto, então, deixemos para as crianças as histórias de Saci Pererê e Boitatá e vamos dançar o coco.

“Eu danço coco desde sempre. Com três anos de idade eu ajudava o meu pai, molhando o barro. Ele foi um grande pisador de coco lá em Junqueiro, onde eu nasci”, diz a mestra Zeza do Coco, do alto de seus 62 anos de idade. “Meu pai dançava nas construções de casa e também em novenas e festas do esquenta mulher [banda de tocadores de pífanos]. Na minha família todos são músicos: minha bisavó dançava coco, meu bisavô que morreu com mais de 100 anos também era mestre. Eu sou a quarta geração. Somando tudo, são mais de 300 anos de coco”, orgulha-se Zeza, que nesta terça-feira prestigiará outros brincantes tornados mestres e que receberão, do Governo do Estado, o diploma de Patrimônio Vivo de Alagoas. “Eu casei com o filho da mestra Hilda. Ela já morreu – era uma grande dançarina e cantora, aprendi muito com ela. Em 1975 eu comecei a dançar profissionalmente com mestra Hilda. Meu marido é conhecido como Black Boy, mas não pisa o coco; estou formando um grupo, que será dirigido pela minha filha, a Joelma, só para ele dançar. Não deixo ele ir às minhas apresentações. É muito ciumento, ninguém pode chegar e dar um beijinho de cumprimento”.

Para Zeza, “folclore é uma brincadeira que virou profissão” e todo dia é dia de folclore. “O 22 de agosto é mais um dia”, ela afirma, queixando-se por não ter sido convidada para dançar nem cantar absolutamente em lugar nenhum. “Vai chegar o dia que a gente vai fazer tudo por conta própria. Eu mesmo, até 2010, fazia um pagode lá em casa em qualquer época do ano. A gente comprava cerveja, cachaça; no Natal e no Ano Novo, o pessoal que saía da missa já ficava dançando. Aqui em Alagoas o artista que é folclórico mesmo não tem muito o que comemorar. Quando se contrata alguém de fora vêm rios de dinheiro. Para o artista da cidade é uma conversa de R$ 1 mil e não passa disso. Não é porque a gente dança folclore e ganha menos que não temos cultura. Um mestre desse, antigo, às vezes nem sabe ler, mas sabe a história, sabe como começou o guerreiro e o pastoril, sabe a história das baianas – eu também sou mestra das baianas e do guerreiro”.

O QUÊ

ZEZA DO COCO

Quando: Sexta-feira, 25, a partir das 19h.

Onde: Shopping no bairro de Cruz das Almas.

Quando: Terça-feira, 29, às 9h.

Onde: Restaurante na Avenida Jatiúca

O QUÊ

ROGÉRIO DYAZ E A TRINCHEIRA

Quando: Domingo, 27, às 19h.

Onde: Praça Santa Tereza, bairro de Ponta Grossa

gazetaweb.globo

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