Ovos de chocolate, coelhinho, Bauman, Platão e Páscoa (um texto de Osvaldo Epifanio)

A Páscoa entre os judeus (recorda a libertação do povo de Israel do Egito) e a Páscoa entre os cristãos (representa a morte e a ressurreição de Jesus Cristo) reúnem, as duas, uma reflexiva força tectônica na história das civilizações: a passagem da escravidão para a liberdade. A primeira, do Egito para Canaã; a segunda, do pecado para o Reino de Deus.

As duas acenam uma verdade categórica naquilo que definiu seus enredos: A Terra Prometida.

Hoje nos juntamos às diferentes páscoas e deixamos na gaveta escura e estreita tudo aquilo que possa nos reportar à marca histórica da Pascae, Pesach, Paskha. Não sem um mínimo de interesse religioso, a turba direciona seus esforços, agora, para o advento de uma nova Terra Prometida. Sim, há uma profunda religiosidade nessa marcha que leva multidões inteiras ao novo mundo. Surge, num horizonte quimérico, a terra de leite e mel dos seus desejos incontroláveis.

São muitos os bezerros de ouro. O consumo, a ostentação, a empáfia, o exclusivismo, o personalismo estão na subida do Monte Sinai das sociedades modernas e são símbolos de novos deuses. Como na Via Crucis, a insolência tomou o fôlego das chicotadas, dos empurrões e das bofetadas em quem ousa brandir o menor sinal de decência, altruísmo e paixão. O seu prêmio é o calvário.

Não há mais simplicidade nos atos humanos, nem “vida explodida” e nem tempo para vê-la desfiar seu fio”. Agora, esmagada pelo status da abastança, a vida prosaica e brejeira é um pecado.  “Vida prosaica e brejeira”. Isso assusta por dois motivos: ou se atribui à cafonice ou é um monstro do atraso. Como se importar com o outro requer uma tarefa hercúlea no momento, os valores de distribuição, contribuição e de compartilhamento (esse só no Face) saíram de cena e soçobraram com a vida vizinha. Assim, tornou-se difícil associar-se com facilidade a quem está ao alcance dos olhos. Impossível formar multidões em busca de um sonho. (As recentes caravanas de protestos pontuais não são multidões atrás de uma Terra Prometida ou da Remissão dos próprios erros. São batalhas justas, sim, mas atordoadas, sem liderança em quem acreditar). Com tantos eventos tribais, em que as demandas estão isoladas, inevitavelmente perde-se o sonho maior: a libertação total da degradação social. Até nisso a modernidade sabiamente isola seus povos. Deixa-os na esteira dos episódios das necessidades. Estava certo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, falecido em janeiro de 2017, aos 91 anos: “Na sociedade contemporânea, emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações.”

Isso remete à dificuldade de se fazer uma peregrinação à Terra Prometida. Sem rumo vertical, um povo não tem pernas para subir o Monte Sinai, nem muito menos ao Reino. Viverá sempre na incerteza, com olhar horizontal para os ovos de chocolate e para o coelhinho como única visão enegrecida de sombras prisioneiras de Platão. A crença se resume nessas imagens ilusórias da futilidade, como se o mundo fosse uma caverna.

Os tantos formatos dessa nova Terra Prometida têm nos tirado o sentido de ajuntamento. Surgem daí as mais instáveis relações sociais da vida moderna, sem a consistência da palavra dita e ouvida a poucos metros. Ora, como nos sentimos descomprometidos com quem nos cerca, não conhecemos outros desejos ou sonhos, não enxergamos defeitos e virtudes em estado puro. Isso, certamente, enterra de vez a possibilidade de se viver prosaicamente.

Os miúdos gestos são, agora, imperceptíveis; as vozes da emoção, inaudíveis; a versão dos abraços, apenas protocolar. Um cantinho à sombra e uma conversa despretensiosa só mesmo para os menos ambiciosos Tem-se caso maior para se lutar, para se debruçar. A vida exige novos horizontes: profissão, dinheiro, posição, sucesso, competição, ousadia, ambição, conforto, criatividade, soluções, apresentação, tarefas, narcisismo secundário. São, de fato, Terras Prometidas distantes e inatingíveis pelos povos atuais. Aliás, os povos deixaram de existir. São filas, agora, transformadas em massa de manobra ou, terrivelmente, alas jogadas ao mar em fugas dramáticas.

Teremos que amargar a dura realidade de uma vida que não sabe para onde ir. Pior, andamos em volta de nós mesmos. O fim? Não há fim. Apenas uma demão da cal no túmulo já construído e, inutilmente, procrastinado pela nossa arrogância. É o sonho de liberdade encerrado sob a lápide.

A Páscoa nos faz refletir, dolorosamente: O que fizeram com todos nós?

Osvaldo Epifanio (Pife)

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