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Portugal Ramalho pode dar espaço ao Hospital das Clínicas ainda este ano

Por trás dos grandes muros na Rua Goiás, muitos sabem o que é, mas poucos sabem como funciona o maior hospital psiquiátrico de Alagoas: o Portugal Ramalho. Por muitos anos, o local era visto como um manicômio e as pessoas temiam até passar por perto, mas, ao longo dos anos, esse paradigma foi se quebrando e, atualmente, a sociedade espera ansiosamente pelas datas comemorativas, onde os pacientes apresentam a vida que há na unidade.

Mas, esta unidade histórica pode deixar de existir a partir deste ano, isto porque, em 2015, o governador Renan Filho (PMDB) anunciou que o local deixará de atender pacientes com doenças mentais para se tornar o Hospital das Clínicas da Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal). Os pacientes passariam a ser atendidos nos Centros de Apoio Psicossocial (Caps), em parceria com a prefeitura.

De acordo com o gerente-geral, Audenis Aguiar, desde 2010 existe o projeto de transformação do local em Hospital das Clínicas, mas para pôr em prática é necessário o fortalecimento das ações nos municípios. Além de verbas, que podem vir do tesouro estadual ou do Governo Federal.

“O reitor [da Uncisal] e as demais autoridades estão trabalhando para que  isso ocorra. Nosso Conselho Gestor tem feito reuniões contínuas e algumas ações devem ser tomadas neste primeiro semestre, período em que acreditamos que não ocorrerá qualquer paralisação dos serviços oferecidos pelo hospital”, afirmou.

Ainda de acordo com Audenis, todo o projeto deverá ser bem planejado, pois a transferência dos pacientes para outras unidades, ou até mesmo para perto da família, tem que ser feita com calma para não interferir no tratamento.

O Hospital

O hospital foi fundado em 1956 e desde então passou por grandes mudanças que aproximaram mais a sociedade da realidade da unidade hospitalar. Abriram as portas às famílias dos pacientes e à comunidade, peças-chave no novo modelo assistencial ao indivíduo portador de transtorno mental, visando seu retorno à sociedade.

As grades de ferro que serviam como portas dos “quartos-fortes” passaram a ser peças decorativas no Espaço da Arte do Inconsciente Leite Oiticica, local onde se encontra exposto todo o acervo artístico produzido terapeuticamente pelos usuários.

Quem pode ser atendido?

De acordo com a direção do hospital, todo paciente com transtorno mental grave ou agudizado pode ser atendido na unidade, desde que tenham sido esgotadas as demais tentativas de tratamento, ou que coloquem em risco sua vida ou a vida de terceiros.

“Nosso censo mensal indica que os diagnósticos mais comuns são esquizofrenia e transtorno por uso de álcool ou outras substâncias. Casos de transtornos do humor, como depressão ou bipolaridade, também são aqui internados, desde que o quadro indique”, explica o diretor-Geral, Audenis Aguiar.

Atualmente, o hospital possui 160 leitos, sendo 95 para o sexo masculino e 65 para o sexo feminino.

Portugal ramalho tornou-se referência no atendimento em Alagoas

FOTO: Aílton Cruz/Gazeta de Alagoas

 

Internação compulsória

Há cerca de 6 meses, a dona de casa Cláudia (nome fictício), entrou em depressão profunda. Seus filhos, marido e parentes deram início a um árduo processo de tratamento e recuperação da paciente. Mesmo com consultas com psicólogos e psiquiatras, Cláudia não conseguia se recuperar e, com o pensamento de que estava dando trabalho para os parentes, tentou se matar quatro vezes. Duas delas, em tentativas frustradas de se jogar do 5º andar do prédio em que o filho mora, na Serraria.

“Eu não pensava em mais nada. Queria morrer porque não aguentava ver meus filhos e meu marido perdendo o sono, perdendo seus tempos livres por minha causa. A única coisa que eu queria era acabar com aquilo tudo e, pra mim, morrer era a única solução”, contou.

Após as tentativas de suicídio, a família decidiu interná-la compulsoriamente. Ela passou 15 dias sem receber a visita de ninguém, Cláudia começou a ter a “consciência” de volta e, segundo ela, esse período foi essencial para perceber que era necessário lutar contra a doença.

“Nesses dias isolada fiquei boa parte do tempo sedada, mas nos últimos dias percebi que não queria mais estar ali. Que preferiria estar ao lado da minha família e que eles seriam minha base para o retorno. Assim que obtive alta médica, voltei pra casa. Tomei um bom banho e deitei em minha cama. Ali sim senti que poderia vencer e venci esta doença”, concluiu.

Cláudia permaneceu 30 dias internada na unidade fazendo tratamento e participando das atividades que o hospital oferece, principalmente as de integração com a sociedade.

Pacientes são abandonados por familiares na unidade hospitalar

FOTO: Gazeta de Alagoas

 

Abandono

Muitos casos atendidos deveriam ter uma curta duração, como determina o regime de tratamento de doenças psiquiátricas, mas em alguns o paciente é abandonado pelos familiares que passam anos esperando se adequarem ao atendimento em residências terapêuticas.

Um desses pacientes é Daniel (nome fictício), que está internado no local há mais de dois anos. Ele foi diagnosticado com esquizofrenia. Desde sua internação, seus familiares só o visitaram uma vez.

“Temos pacientes abandonados aqui pela família há muitos anos, aguardando a abertura de residências terapêuticas para que eles possam ser avaliados se se encaixam nesta modalidade de atenção à saúde mental. Isso sem falar nos vários casos de internação compulsória, em que se demora bastante a liberação por conta da Justiça, mesmo com alta médica já autorizada”, contou Audenis.

Pacientes internados em um dos corredores do hospital

FOTO: Ricardo Lêdo/Gazeta de Alagoas

 

Festividades

O Hospital Escola Portugal Ramalho contribui sistematicamente para a reinserção social dos seus usuários na comunidade, através de eventos como o “Bloco Maluco Beleza” (Carnaval), “Arraiá Forró Beleza” (São João), “Festa da Primavera”, “Pastoril” e “Reisado” (Natal) e “Encenação Teatral da Paixão de Cristo” (Semana Santa). Todos eles, sempre com fortes emoções e com a participação ativa de usuários, familiares, funcionários e da comunidade em geral

No último dia 15 de dezembro, na Praça Chiquinho, anexo da unidade hospitalar, com a participação de familiares e amigos, os usuários fizeram uma apresentação de pastoril em comemoração à chegada do Natal. Eles ensaiaram durante mais de um mês os passos da dança folclórica, típica desta época do ano. Durante os eventos, os usuários do hospital esquecem que estão internados.

Pacientes participam de pastoril em celebração ao Natal

FOTO: Ailton Cruz – Gazeta de Alagoa

 

Para o paciente Adriano, internado há dois anos na unidade, momentos como esses são os melhores durante todo o tratamento. “Eu gosto das festas, das pessoas que gostam da gente. São momentos bem animados”, afirma

A comemoração contou com muita música, apresentações culturais, lanche e presentes. Mas poderá ter sido uma das últimas das festas realizadas no hospital, que está em processo de fechamento.

Além do Natal, uma das festas mais aguardadas pelos pacientes e a vizinhança é o pré-carnaval com o desfile do bloco “Maluco Beleza” que dá uma volta no quarteirão acompanhado por uma banda de frevo, pessoas fantasiadas e muita diversão.

Segundo o psicólogo e coordenador do setor de recreação do hospital, João Neto, o evento é uma forma de reinserção do paciente na sociedade. “Quando eles veem a família participando, juntamente com a banda, numa alegria contagiante, não se sentem excluídos”, declarou, animado, o psicólogo.

Bloco Maluco beleza é um dos mais aguardados todos os anos

FOTO: Gazetaweb Arquivo

gazetaweb.globo.

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