56648a59-bda6-452b-9f4e-3a9ecdf14a41

A enquete de Fátima Bernardes e o politicamente correto…

Quando o politicamente correto entra por uma porta, não é surpresa que o bom senso saia imediatamente pela outra. Quem já leu o fantástico romance distópico 1984 de George Orwell, já se notou que uma das formas de controlar a população por meio da subversão de valores é a criação de uma nova língua. No romance, Orwell chama de novilíngua. Na realidade – já que a vida imita a arte e, em alguns casos, vice-versa – esta novilíngua é o politicamente correto que acaba confundindo vítimas e carrascos, ou introduzindo uma agenda política por meio de pequenos gestos, atos e falas.

Um fato interessante que pode estar contido no parágrafo acima ocorreu em uma das edições do programa Encontro Com Fátima Bernardes. A apresentação global foi infeliz em uma enquete e causou a revolta em parte da população que partiu em defesa dos policiais e mostrou discordância com a forma como foi realizada a enquete. Mas, isto foi o suficiente para alguns dizerem que Bernardes foi atacada por “reacionários irracionais extremistas”. Afinal, tudo que vai de encontro à visão progressista é extremismo puro, não é mesmo? Pouco importa o conteúdo.

A pergunta da enquete era essa aqui: “Quem você salva primeiro? Traficante em estado grave ou o policial levemente ferido?”. Ora, a lógica e o bom senso mandam que se socorra inicialmente aqueles que se encontram em estado mais grave, independente de quem seja. Afinal, trata-se de salvar vidas. Sendo assim, quem lê a pergunta enxerga: devemos salvar primeiro um ser humano em estado grave ou aquele levemente ferido, que pode esperar pelo atendimento posteriormente?

Mas, a enquete quis criar uma pegadinha opondo policiais e traficantes. O pensador Pascal Bernadini – que estudou táticas de manipulação – é uma excelente leitura para entender como funcionam determinadas pegadinhas que usam da linguagem para subverter o óbvio e confundir valores e pensamentos. Neste caso, funciona assim: você faz uma pergunta óbvia criando uma polaridade inexistente (no caso a polaridade real seria entre a gravidade dos ferimentos e não entre os policiais e os traficantes) para que as pessoas optem pelo traficante ao invés do policial. E aí fica parecendo que há uma “rejeição à polícia” por parte da população que enxerga o traficante como vítima nos confrontos.

Ou seja, tende a construir a seguinte conclusão: se reprova tanto a polícia ao ponto de querer salvar primeiro o traficante. É um raciocínio falso diante das premissas apresentadas. Todavia, “bater” a polícia é um passatempo para o politicamente correto.

Mas assim, com uma pergunta atrás da outra, em pouco tempo você associa a polaridade ao mérito da pergunta e passamos a defender traficantes em detrimento de policiais. Tais táticas não são por acaso. Claro, não descarto a possibilidade da Fátima Bernardes ser só mais uma idiota útil a utilizar a ferramenta sem sequer entendê-la, em função do quanto já está espalhada. Se há dúvidas, leiam George Orwell ou então leiam Pascal Bernardini (Maquiavel Pedagogo).

Bernardini descreve diversos mecanismos de manipulação de opiniões e sentimentos com base em documentos da Unesco.

Quem notou a “pegadinha” do programa de Fátima Bernardes se revoltou com a situação e, como telespectador, manifestou sua opinião. Eu mesmo ironizei em minhas redes sociais: “Se um bandido ameaça invadir a sua casa, para quem você liga para te salvar: para o traficante ou para a Polícia opressora que vai a tua residência reprimir esta vítima da sociedade?”.

Se há policiais que usam da farda para cometer crimes e agem fora da lei, estes devem ser punidos pois abdicaram de ser policiais para se tornarem criminosos. Porém, é preciso entender que a corporação da polícia tem uma importância enorme em nosso ordenamento social. São milhares de homens que vão às ruas – muitas vezes em condições adversas e com salários defasados – para garantir segurança em um país onde morrem 60 mil pessoas por ano, onde o tráfico impõem um poder paralelo com regras próprias e tribunais de execução onde não há advogado nem amplo direito de defesa. Há apenas o poder do traficante em decidir quem vive ou morre.

Lembram do caso do jornalista Tim Lopes? Pois é!

Sob hipótese alguma se pode comparar ou nivelar aquele que tem o dever de cumprir a lei com um bandido que está pronto para tudo, inclusive matar ou morrer. A guerra é, por essência, assimétrica. O policial já entra em desvantagem. E este é mais um motivo para se combater também os maus policiais no sentido de limpar a corporação desta minoria e a fazer mais eficiente, privilegiando os bons.

E os bons policiais sabem que – diante de um confronto – devem socorrer os que forem alvejados, independente de qualquer coisa. Pois, em um confronto armado, é lógico que a atenção vá primeiro para o gravemente ferido e depois para o que foi levemente atingido, já que este pode esperar.

Então, a pergunta feita pelo programa de Fátima Bernardes ou é desonesta propositadamente ou mal elaborada ao ponto de levar à desonestidade. Como não conheço os produtores, não posso afirmar veementemente qual é o caso. Mas, em função do histórico, aposto no primeiro. Se honesta fosse, seria: em um confronto entre policiais e traficantes, quem você salvaria primeiro aquele que estivesse levemente ferido ou o que fosse gravemente atingido? A resposta seria a opção pelo “gravemente atingido”, independente dele ser policial ou não. Afinal, o levemente ferido não precisa ser salvo, mas simplesmente atendido.

No mais, levando em consideração o campo de valores que representam: entre policial e bandido, eu estou do lado do policial.

De forma mais cirúrgica, o colunista do CadaMinuto, advogado e escritor Bene Barbosa comentou: “Oras, se o policial está levemente ferido não precisa ser salvo, apenas atendido. A intenção é clara e evidente: tentam de todas as formas possíveis dizer que a polícia não conta com o apoio daqueles que eles protegem. Honestidade seria perguntar: se um policial e um criminoso igualmente feridos com gravidade dessem entrada no hospital qual deveria ser salvo em primeiro lugar? Mas ai o resultado não atenderia a esse pessoal asqueroso”.

.cadaminuto

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com