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Aos comissionados que reclamam da pressão para plotar seus carros

Tenho recebido, nos últimos dias, várias denúncias de servidores, a maioria, ocupantes de cargos comissionados, que se dizem pressionados a plotar os seus carros – colocar os tais “furadinhos” – pelos respectivos chefes nas repartições públicas.

A minha primeira reação foi demonstrar a minha indignação com a situação, até porque sentia que havia sinceridade em muitos daqueles que me procuraram.

Mas há algumas considerações possíveis a se fazer.

É claro que o medo de perder o emprego fez com que a maioria cumprisse a ordem, ainda que em pelo menos um dos casos o servidor se negasse – e manteve a palavra – a aceitar, com valentia, a encomenda humilhante.

E é de humilhação que estamos falando.

Há gente que, efetivamente, depende desse salário – quase sempre muito baixo – para fazer a feira, o que torna a situação ainda mais aviltante: é de cortar o coração.

Vale lembrar a frase do palhaço decadente, interpretado e dirigido por Charles Chaplin, em Luzes da Ribalta: “A fome não tem escrúpulos”.

A estes servidores,  minha mais viva solidariedade.

Mas há os que exercem os tais cargos em comissão porque têm amigos no poder. Uma gente, em regra, sórdida e de péssimo caráter, cuja missão no mundo é o de replicar o modelo perverso de injustiça social em que vivemos, sem que isto lhes provoque – ao padrinho e ao afilhado – qualquer constrangimento ou dilema de consciência. E, por isso, continuamos a ser o mais pobre entre os pobres.

Se o beneficiário da prebenda reclama porque se sente envergonhado de se apresentar como cabo eleitoral deste ou daquele candidato, bem que merece passar pelo vexame de saber que os outros o identificam como alguém que se vendeu – uma consciência negociada no balcão da vergonha.

(“Todo homem que se vende recebe bem mais do que merece” – Aparício Torelly, o Barão de Itararé.)

Mas, cá para nós, de uma vez por todas, deixemos de responsabilizar o eleitor “pobre e analfabeto da periferia, que vende o seu voto” pela nossa tragédia política cotidiana, alimentada por canalhas e corruptos. É de gente da classe média de quem estamos falando, uma turma que reclama tanto da corrupção alheia que nem se dá conta de que a pratica sem qualquer pudor.

Muitas vezes, a consciência é só uma questão de preço – e nem precisa ser lá grande coisa.

O “furadinho” passar a ser, então, apenas um detalhe no carro abastecido com o dinheiro da saúde, da educação, fruto da corrupção cotidiana.

(A hipocrisia é a homenagem da virtude ao vício.)

blog.tnh1.

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